Entrevista: “Acho que a mulher vem lutando para ganhar alguns espaços”

foto 2 Marisa Rosseto
Marisa Ester Rosseto, Diretora Educacional do Colégio Marista Arquidiocesano (SP)

BLOG: Conte, resumidamente, sua trajetória profissional, desde o magistério até assumir a Diretoria Educacional do Marista Arquidiocesano.

Marisa Ester Rosseto: Sou de uma família de 5 irmãos. Eu era a quinta filha e depois de 11 anos nasceu o meu irmão Daniel. Então sou de uma família grande de São Caetano (São Paulo) na qual meu pai, junto com meus tios, tinha uma metalúrgica e as casas eram todas grudadas, da minha tia, da minha nona, casas interligadas no fundo.

Tenho uma mistura de sangue basco do meu avô com sangue italiano da minha nona. Minha mãe era professora do Estado – professora do antigo primário – e ficou parada durante um tempo para ter filhos e voltou depois de um tempo.

E sempre vi minha mãe, minha tia, meu tio, uma família de vários professores, e sempre vi a profissão de professora como algo positivo, principalmente para a mulher.

Mas, quando eu estava no ginásio, pensava em fazer Odontologia. Todas as vezes que eu ia ao dentista, me encantava com aquele trabalho. No Ensino Médio, minha mãe sugeriu que eu fizesse magistério e, se eu tivesse vontade, posteriormente faria odontologia. Acabei entrando em uma escola pública de referência para fazer magistério e foi um choque, pois estava acostumada a outro universo. Mas, passado esse momento, gostei muito. Foi um dos melhores cursos que fiz até hoje. Toda a minha base em psicologia vem de lá. Tive excelentes professores.

Um dia fui acompanhar uma amiga que concorria à vaga de auxiliar em uma escola. Eu não fui para concorrer à vaga, até porque eu tinha muita atividade, fazia vôlei no clube, fazia piano. Inesperadamente recebi o convite dessa mesma escola para trabalhar lá. Meu pai, a princípio, não gostou muito da ideia, alegando que eu não precisava trabalhar, mas insisti e banquei minha decisão.

Ali me descobri, dando aulas para o antigo maternal 2. Tive o privilégio de ter um início em uma escola maravilhosa, assessorada pela escola da Vila, um local no qual tive muita formação. Naquele momento acabou meu sonho de fazer odontologia. Me descobri, terminei o magistério. Dobrava período (duas escolas) e fazia faculdade de artes plásticas de noite (continuidade dentro da licenciatura). Nunca mais larguei. Depois fiz pedagogia, ingressei no Externato Santo Antônio atuando como professora e coordenadora de educação infantil. Tenho uma longa história em escolas cristãs católicas marcadas pela responsabilidade de educação.

Entrei no Colégio Marista Arquidiocesano como substituta de 4° e 5° anos. O colégio sempre me encantava por estar sempre bem avante no Ensino Religioso. Disse para mim mesma: “Um dia eu vou trabalhar lá”. Notei que comecei a pensar grande para o local em que estava. No Marista, me perguntaram se eu toparia migrar de coordenadora para professora. Aceitei e foi uma delícia.

Eu já tinha filhos na época, mas não os trouxe para São Paulo. Isso foi um acerto. Depois que me adaptei, eles vieram. Sempre tive muito apoio, tanto do meu marido quanto dos meus, PAÍS e irmãos. Fui a primeira filha a casar e ter filho, meu pai queria muito netos. Tive todo apoio de toda família.

O percurso no Arquidiocesano foi plural. Fui professora substituta, professora titular (Fund. 1), coordenadora de série (2° ano), tornei-me professora de Ensino Religioso (do Fundamental ao Ensino Médio), virei Coordenadora de Ensino Religioso da escola toda, assessora psicopedagógica da 1ª a 3ª série do Médio, até que recebi convite para concorrer a vaga de Diretora Educacional e fui a escolhida.

Ninguém está pronto para cargo nenhum de verdade. Gosto de gestão, gosto de liderar as pessoas, gosto de conversar. Fiz e gosto de fazer muitos cursos: pedagogia; psicopedagogia; mestrado em políticas públicas em educação. Acredito muito na experiência. “Estar” hoje diretora, tendo passado pelas funções de substituta, professora titular, de titular de sala, de coordenadora de série, de coordenadora de área, coordenadora psicopedagógica faz muita diferença, ajuda muito.

Acredito numa gestão participativa e democrática, onde as pessoas podem ter vez e voz.

BLOG: Acredita ter tido mais dificuldades na ascensão da carreira por ser mulher? Pode citar alguns exemplos? Questões cotidianas mesmo.

Marisa Ester Rosseto: Não. Não porque a minha carreira tem muitas mulheres, principalmente no magistério com as professoras polivalentes. Mas, na área de gestão, já ouvi comentários, fora do Grupo Marista, sobre o fato de algumas pessoas pensarem que homens desempenham melhor essa função.

BLOG: Como é a experiência de ser Diretora Educacional do Colégio Marista Arquidiocesano? Deve ser desafiador ter tantos colaboradores sob seu comando. Desafios do cargo. 

Marisa Ester Rosseto: Sempre penso nesse legado, nessa responsabilidade de uma escola tão sólida e tão séria. Tenho respaldo de ter uma diretoria colegiada restrita na qual a gente divide muito, aprendo com eles. Dividido o peso das decisões. Também conto com uma equipe de coordenadores – psicopedagógicos e coordenadores de áreas -, a gente divide muito. Acho muito bacana ser diretora educacional, agradeço a Deus por todas as oportunidades, mesmo com o desafio de ter hora para entrar e não ter hora para sair. Adquiri um olhar amplo, a capacidade de ver o todo. Todas as pessoas passam a ter maior importância dentro das funções delas, passei a me preocupar mais com questões administrativas.

BLOG: Na sua avaliação, como está o mercado de trabalho brasileiro na área de educação?

Marisa Ester Rosseto: Quanto ao mercado brasileiro de educação, os professores dificilmente ficarão sem trabalho. Eu vejo um diferencial em relação a muitas outras profissões. Sempre achei, e continuo achando, que médico e professor dificilmente ficarão sem trabalho. Claro que, com mudanças econômicas, houve enxugamento em escolas particulares e públicas, houve uma redução muito grande de alunos nas escolas particulares que migraram para a pública. Mas assim mesmo, na pública, dificilmente vejo colegas desempregados. Podem sair de uma empresa que pague mais para uma que pague menos, mas professor sempre tem trabalho, principalmente para professor bom, professor especialista, dedicado e responsável. Ainda nesse contexto, o mercado para educação é favorável.

Se o Brasil seguir numa linha de investimento maior para educação, de qualificar os profissionais, isso pode melhorar ainda. Mais do que o mercado, minha preocupação é com a qualificação dos profissionais. Dentro do Brasil, vemos muitos Brasis, faltam professores especialistas para os alunos do ensino Fundamental e Médio. O maior problema não é mercado de trabalho, mas sim da falta de valorização e investimento nos educadores em geral no Brasil.

BLOG: Qual a sua visão geral sobre ser mulher e atuar em educação?

Marisa Ester Rosseto: Houve, de fato, um empoderamento feminino de uns anos pra cá. Hoje vejo mulheres dirigindo o trem/metrô, por exemplo. O que eu sinto, e o que eu vejo, é que a mulher acumulou muitas funções: ela é mãe, mulher, filha, esposa… Mas tem também muito pai bacana assumindo bem essas divisões das tarefas de casa.

A área da educação, inclusive, favorece esse papel multitarefas. Quando a mulher tem uma família estabilizada, ela consegue montar um horário bacana para acompanhar os seus filhos e não abandonar a profissão.

Acho que a mulher vem lutando para ganhar alguns espaços; não sou exatamente feminista, mas acho bem bacana algumas lutas e conquistas de um grupo atuante. Luto sim pela igualdade de gênero, de raça, social, é bacana todo mundo ter um lugar. Acho muito gratificante ver alunos que não teriam oportunidade de estudar em escolas como a nossa e, a partir de alguns projetos, terem essas condições.

Carreira de educação é encantadora. Existe uma cobrança enorme do mercado, das imposições, modelo de gestão, nos contextos educacionais. Antigamente o professor dava só a aula e o coordenador era coordenador. Hoje não, hoje o contexto é globalizado e o universo é muito mais complexo.

Nada nunca vai substituir um bom professor. Sou muito feliz nessa profissão. Consegui equilibrar a minha vida de mãe e de mulher. Claro que a gente sempre acha que está devendo para um lado, mas isso faz parte do ser humano, cuidar da espiritualidade, do corpo, cumprir o papel de filha, de mãe, de vó, de irmã.

Se eu vou voltar na primeira pergunta, se eu tivesse ficado na minha primeira opção, que era odontologia, acho que não seria tão feliz profissionalmente como sou.  Agradeço todos os profissionais e escolas pelas quais passei – atuei em boas escolas particulares (pequenas, médias e grandes). Também agradeço à minha família, que sempre me apoiou. Sou uma profissional e uma mulher muito realizada.

 

Foto: ©Divulgação

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