“A escola tem a tarefa de construir outra abordagem de gênero, que seja plural, justa”, destaca gerente técnica de gênero

Viviana Santiago
Viviana Santiago, gerente técnica de gênero da Plan International Brasil

 

BLOG: Pensando em educação, qual a importância de mulheres ocupando cargos de gestão/direção de instituições?

Viviana Santiago: Desde o ponto de vista de repertório, é essencial para o empoderamento de meninas e mulheres a sensibilização de meninos e homens. O fato de identificar mulheres em lugares de liderança, possibilita a cada menina perceber que ali é um lugar possível, se reconhecem, então, como meninas e como possuidoras das competências necessárias para esse lugar de tomada de liderança. Para os meninos, é a possibilidade de reconhecer que esse também é um lugar para as mulheres e aceitar essa realidade.

Outro aspecto é o de justiça: as mulheres são metade da humanidade, e é justo que todos os processos possam ter a participação delas, ampliando, então, a capacidade de análise, diversificando os processos de tomada de decisão e intervenções.

BLOG: Segundo dados divulgados pelo Fórum Econômico Mundial, em um ranking no qual compara a igualdade de gêneros entre os países, em 2014, no que se refere a equiparação dos salários, o Brasil ficou com a 71ª colocação. Sobre a questão de igualdade salarial entre homens e mulheres, o debate é constante, mas ainda é uma realidade distante no Brasil?

Viviana Santiago: Ainda temos uma realidade bastante desafiadora no que diz respeito a justiça de gênero no mundo do trabalho. E aqui estou usando propositalmente a expressão “mundo do trabalho”, chamando a atenção para o fato de que no mercado de trabalho temos um desafio imenso, mas em todos os outros espaços de produção os desafios permanecem.

No mercado de trabalho, os estereótipos de gênero atuam fortemente e constroem a sobrerrepresentação das mulheres nos setores mais precários, na construção social da inferioridade feminina e na articulação do pensamento machista de que a mulher não é responsável por si. Isso atua na construção da diferença de salários entre mulheres e homens, que impede a equivalência para as mesmas funções e jornadas. A gravidez, por exemplo, continua sendo entendida como um empecilho a contratação de mulheres.

Para além desse fato, as mulheres ainda são, em sua maioria, responsáveis pelo trabalho reprodutivo, aquele trabalho de cuidados que é necessário para toda a humanidade, o que faz com que a carga de trabalho diário das mulheres seja imensa. A jornada de oito ou mais horas diárias e a jornada de mais quatro, seis horas de trabalho em casa. Toda a humanidade precisa de cuidados, o problema é que só metade dela cuida, as mulheres.

Mulheres também têm imensa dificuldade em conseguir acesso e controle aos meios de produção, aos financiamentos, créditos, terras, pelo fato de serem mulheres.

BLOG: A desigualdade entre gêneros é impulsionada por uma cultura machista – fator cultural este alimentado por todas as correntes sociais em nosso país. Como é possível, então, desconstruir esse padrão e educar para uma equidade de gêneros? Pequenos hábitos cotidianos reforçam os estereótipos de gênero desde a infância?

Viviana Santiago: Esse é um desafio que está para todas as pessoas da sociedade. Todos atuam no processo de socialização das crianças e é preciso começar por ai: não é papel apenas da família, apenas da escola, apenas das religiões, etc.

Em todos os espaços e interações que estamos/temos, nos enviam mensagens sobre o que significa ser menina, menino, mulheres e homens. Enviam modelos, verdades, normas. Nos dizem o que é normal, o que não é normal, o que é possível, o que é próprio de cada gênero.

Nesse sentido, é preciso que revisitemos essas mensagens. Em casa, na família, identificar aquele processo de expectativas de comportamentos, atitudes, posturas para as crianças pautadas no que é considerado “natural” para cada criança. Identificar que todas as crianças têm direito de desenvolver plenamente seu potencial para além dos estereótipos de gênero, dos papéis tradicionais de gênero que dizem que “isso” é coisa de menino, “isso” é coisa de menina e acabam travando o potencial e prendendo as crianças a esse estereótipo.

A escola tem a tarefa de construir outra abordagem de gênero, que seja plural, justa. Aqui uso intencionalmente “outra” abordagem de gênero, porque a despeito de tudo isso que se polemiza sobre se a escola deve ou não deve discutir gêneros, é preciso que enxerguemos o fato que a instituição já opera um currículo e uma prática baseada nos papéis tradicionais de gênero, que tiram a visibilidade da participação das mulheres enquanto sujeitas construtoras da historia, reitera o lugar dos meninos e homens como heróis salvadores, trava o desenvolvimento do potencial das crianças a partir de leituras de gênero de suas habilidades, e por aí vai.

A mídia reitera estereótipos e produz um discurso sobre o que é ser mulher e homem, a mesma coisa fazem as religiões e demais instituições.

Um desafio pra todo mundo: Identificar esse discurso, analisá-lo e estabelecer uma nova fala, que potencialize a justiça de gênero desde a infância.

A criança aprende com as outras crianças, com a família, com a tv, com os aplicativos, com a escola, com tudo, então tudo precisa ser observado e revisto.

BLOG: Você acredita que com o advento tecnológico, o fomento de movimentos e articulações em redes sociais, o tema empoderamento feminino vem ganhando cada vez mais potência e existência?

Viviana Santiago: O advento tecnológico, a capacidade de organização e difusão de conteúdo pelas redes sociais online, tudo isso fortalece a organização e a resistência das mulheres, em função da possibilidade da mensagem se difundir rapidamente e para muito longe.

Precisamos, no entanto, reconhecer que existe aí um desafio de possibilitar acesso igualitário de mulheres e homens à tecnologia. Sabemos que a criação e uso de tecnologia ainda são campos eminentemente masculinos e, nesse sentido, reconhecendo a possibilidade desse campo, organizações, organismos, coletivo etc. vêm atuando fortemente em processos de instrumentalização, desenvolvimento e competências de meninas e mulheres para atuarem nesse campo.

 

Foto: ©Divulgação

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