O Brincar em tempos de infâncias

criancas-brincando

Por Aline Paes de Barros

Em nossas memórias afetivas, a prioridade geralmente, é daquelas situações em que nos encontramos livres, aptos para inventar e deixar a criatividade como pano de fundo para nossas ações. Há algo em nossas histórias que nos deixa cheiros, sensações e marcas como lembrança da infância, essa ação chama-se Brincar.

A infância é o momento especial para que as brincadeiras fluam em nosso cotidiano. Livre de responsabilidades, regras e cobranças, o brincar marca a nossa passagem pela vida como algo intenso e prazeroso.

Nosso tempo atual é organizado de maneira muito diferente se comparado às nossas gerações anteriores. Atualmente, na velocidade com a qual podemos “resolver” as coisas, teoricamente, nos sobraria tempo para outras.  Hoje, temos o e-mail que substitui a carta, as máquinas que substituem as pessoas, a videoconferência que substitui a viagem, o telefone e as mensagens instantâneas, que são de fácil alcance e podem substituir o encontro entre duas pessoas.

Já a infância, essa tem outro tempo, algumas formas de brincar podem até ter sido substituídas pelos meios tecnológicos, mas as crianças nos fazem lembrar que sempre há tempo de brincar. O tempo numa brincadeira infantil é mero detalhe, pois é possível viajar mil anos em dois segundos. O brincar é um tempo próprio da infância e demonstra que, a despeito de tantos anos de avanços tecnológicos, a brincadeira traz à tona uma maneira de aproveitar as horas do relógio de maneira agradável, livre de imposições e controle.

Os adultos acabam tornando-se responsáveis em favorecer ou não que as crianças brinquem, sendo assim, é importante que o tempo e o espaço de brincar sejam respeitados por aqueles que um dia já foram crianças. Sabemos que em nossa memória afetiva, carregamos como boas experiências aquelas de quando estávamos livres para fazer o que queríamos ou para estar e brincar com quem nos agradasse. A infância é um momento único e tem seu tempo muitas vezes encurtado pelas obrigações próprias do mundo adulto.

Para favorecer espaços de brincar, é preciso ter clareza de que este é um direito da criança e que se ela não o tiver garantido durante este período, o tempo não poderá repor o que foi perdido. Aos adultos, cabe respeitar e valorizar este momento, proporcionando espaços que possibilitem as brincadeiras, a exploração com diversos materiais e, sempre que possível, com outras crianças. Abaixo, relacionamos algumas sugestões para os adultos que buscam tornar esta prática mais rica:

 

  • Garanta sempre um tempo: Assim como se planeja atividades diárias, o tempo para o brincar livre pode estar na agenda, possibilitando que todos os dias a criança tenha este momento respeitado, mas sabemos que o ideal é estar, sempre que possível, livre para a brincadeira;

 

  • Brinque com coisas diferentes: Possibilite acesso a materiais diferentes, principalmente para as crianças bem pequenas. Objetos que não são comprados para esta finalidade tem as maiores possibilidades de desenvolver a criatividade (copos, panelas, tecidos, baldes, garrafas, etc).

 

  • Brinque junto: O Brincar intergeracional que mistura pessoas de diversas idades é uma ótima possibilidade para aproveitar as brincadeiras, neste momento, os adultos podem ensinar brincadeiras antigas e as crianças podem partilhar as ideias mais atuais;

 

Sendo assim, é possível que a valorização da simplicidade do Brincar seja o foco para garantir que este direito faça parte da vida de nossas crianças. Ainda que o tempo de brincar junto não seja o suficiente, entendemos que a qualidade deste tempo seja o mais importante.

Desejamos que as mesmas memórias que nos trazem hoje afeto de uma infância que nos auxiliou na formação enquanto ser humano, continue, em meio a tabletes e celulares, a encantar o tempo das crianças de hoje, trazendo a elas memórias afetivas intensas, como as nossas.

 

AlinePaesAline Paes de Barros é diretora do Centro Social Marista Robru, na zona leste de São Paulo. Pedagoga e Mestre em Educação: Currículo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

A escola em busca de sentido e os desafios da Gestão Educacional

Por Fátima Maria de Souza Rebouças

É claro e notório que as escolas buscam sentido para o seu “fazer pedagógico”. Compreendemos que essa falta de sentido é oriunda dos vários desajustes na trajetória educacional do país. Entende-se a partir daí o porquê dos vários desafios e desencontros enfrentados pelas Instituições de ensino brasileiras. Esse, inclusive, em sua abrangência macro e em seus detalhes também, foi um dos importantes temas debatidos na Bett Educar, que aconteceu na última semana, o qual participamos.

Nesse contexto, entende-se também o imenso desejo se acertar, entende-se a procura incessante por soluções que norteiem essas práticas inovadoras e que eliminem a dicotomia entre a escola e a vida dos alunos.

As instituições educacionais têm pautado suas ações em constantes palestras motivacionais e provocadoras de processos que deem respostas ao dia a dia da sala da aula. A partir de questionamentos sobre o como estimular os alunos em sala de aula e respeitar suas experiências, e sobre o envolvimento dos educadores nessas mudanças, percebe-se ainda um descompasso entre o mundo e a escola. Pensar em uma escola que dê sentido é buscar fundamentação teórica é entender que o mundo mudou e, consequentemente, a forma de ensinar não pode ser a mesma do século passado. É absorver os anseios da sociedade e, principalmente, comprometer-se com a construção de sujeitos éticos e justos.

Para dar sentido ao conjunto de soluções educacionais buscados pela escola do Século XXI, os saberes não podem estar centrados no achismo ou apenas nos desejos dos seus atores. Por isso, as instituições educacionais estão buscando sentido, na sua maioria, em soluções didáticas inovadoras. Muitos desses materiais ampliam as propostas educacionais, ao incluir novas experiências de aprendizagem.

O documento normativo da nova versão da BNCC, por exemplo, rege que as instituições de ensino sejam conhecedoras e extremamente comprometidas com os novos processos de ensino e aprendizagem e que estes estejam à serviço dos seus atores e da sociedade. Contudo, não existe fórmula mágica para o sucesso dessa empreitada, mesmo países desenvolvidos educacionalmente enfrentaram alguns percalços, como os EUA. Mas, para que o caminho seja mais assertivo possível, é preciso que seus atores dominem seus papéis e se  adaptem aos novos contextos, dominem as novas competências e desenvolvam as  novas habilidades – como as socioemocionais, tão necessárias atualmente –  e principalmente que saibam colocá-las a serviço dos seus alunos.

Por isso, enfatizo que além das metodologias ativas e dos processos de avaliação educacional, focados nas habilidades e competências que o sujeito aluno deve dominar, compete a escola estruturar seus processos didáticos com foco em cinco eixos principais, a partir da Educação Infantil, são eles: CONVIVER, BRINCAR, PARTICIPAR, EXPLORAR, EXPRESSAR E CONHECER!

A mudança de paradigma, com esse foco, requer uma série de providências que não são simples.  Do ponto de vista pedagógico, ou melhor, da ação que norteia a prática pedagógica do professor, o novo modelo de educação (com transformações no planejar, ensinar, estudar e aprender) exige que o docente compreenda, viva e saiba lidar com competências humanas.

Nesse processo, é urgente, portanto, distinguirmos o que é essencial para cada escola e o que é importante para as crianças e jovens com as quais trabalhamos. A escola que busca sentido norteia um planejamento interdisciplinar, visto que se orienta para um diálogo por competência, por área de conhecimentos e suas respectivas habilidades.  O educador americano Thomas Burke, autor de “O professor revolucionário”, sugere que a sala de aula não deve se restringir ao espaço das quatro paredes, mas estender às bibliotecas, aos laboratórios, aos escritórios, às lojas, ao campo, à favela, à floresta, ao mundo da internet, enfim, a todo meio ambiente físico e social no qual o verdadeiro processo de aprendizagem se desenvolve. É nessa sala se aula que as relações humanas devem ser intensificadas, que o respeito às diferenças deve ser trabalhado e onde o cidadão do futuro será formado.

Conscientizemo-nos, portanto, que o sentido da escola do século XXI deve ser de orientar a interdisciplinaridade com as relações humanas, sociais, políticas e emocionais que amem, respeitem, cooperem e incluam. E para isso, é preciso que educadores na sala de aula e gestores escolares trabalhem com os mesmos objetivos. Com olhar para novas estratégias que despertem o desejo e a curiosidade pelas tecnologias e pelas novas formas de aprendizagem significativa.

A aprendizagem só faz sentido quando vai além e descortina novos horizonte, em toda a cadeia escolar: desde os gestores até os professores, desde auxiliares e demais funcionários aos alunos e sua família.

 

Fatima - FTD Educação - consultora pedagógica FTDFátima Maria de Souza Rebouças é formada em Educação, com especialização em Gestão e Educação Infantil. Trabalha na FTD Educação como consultora pedagógica de Sistema de Ensino. Implantou o Sistema de Ensino FTD Educação nos Estados do Nordeste e Norte. Anteriormente, atuou como gestora no Colégio Marista de Aracati. O texto apresentado são falas do exercício diário junto às escolas e aos gestores.

 

 

Sobre o Trilhas Sistema de Ensino:
Voltado às escolas privadas, a solução educacional oferece materiais impressos e digitais que fortalecem os processos de ensino-aprendizagem. Trilhas foi elaborado para auxiliar as escolas no caminho do conhecimento, da qualidade do aprendizado e do desenvolvimento de melhores práticas de gestão de maneira integrada. Inicialmente, o novo Sistema de Ensino traz conteúdos para a Educação Infantil e para o Ensino Fundamental I, em todos os componentes curriculares e áreas do conhecimento. Materiais complementares também fazem parte da Coleção Trilhas: livro da família, diário e módulos que trabalham a cidadania, na Educação Infantil, e livros de Educação Financeira, Arte, Inglês e Espanhol, no Ensino Fundamental I. Posteriormente, o Sistema será ampliado e atenderá também ao Ensino Fundamental II e ao Ensino Médio.

Lições para praticar a igualdade de gênero nas escolas

Por Leiza Oliveira

Igualdade: para muitas pessoas essa palavra remete algo utópico e/ou difícil de ser aplicada na prática. As escolas são conhecidas muitas vezes pelo ambiente dividido em grupos e segmentados. Com séries como “13 reasons why” reacende a discussão do machismo e o estereótipo, muitas vezes, colocado nas meninas do ambiente educacional. Nesse contexto como nós, gestores educacionais podemos atuar para praticar a igualdade de gênero?

Quando comecei as escolas Minds, em 2007, enfrentei muita dificuldade por ser mulher e estar à frente de uma instituição de ensino. Por isso, sempre pensei em como colocar dentro das minhas escolas a igualdade de gênero e o combate ao preconceito. Já na primeira unidade da Minds, em Porto Alegre, desenvolvia nas aulas de inglês o tema sobre igualdade de gênero e promovia debates acerca do assunto para os alunos discutirem. Dessa forma, eles praticam o inglês e ainda discutem um tema importante.

Conforme a rede Minds foi aumentando, cresceu a minha preocupação de como manter as ações de igualdade de gênero nas escolas. A Minds deu um “boom” no ano seguinte, em 2008, e por isso optei pelo sistema de franchising. Para ter ações uniformes em todas as escolas optei por um treinamento assíduo dos franqueados. Nessa imersão da franquia além dos aspectos gerenciais e administrativos, abordamos temas educacionais, gênero, bullying e demais assuntos que valem ser discutidos na sala de aula.

Com esse treinamento do franqueado por meio da Universidade Corporativa Minds, que são treinamentos online e presenciais, conseguimos manter nas mais de 70 escolas, nas 5 regiões do país, a igualdade de gênero nas salas de aula. Tive essa preocupação porque no nosso país ainda temos diferença de gênero nas escolas e no mercado de trabalho. Ainda é uma realidade no País as diferenças de remuneração entre homens e mulheres. De acordo com dados da RAIS – Ministério do Trabalho e Emprego – trabalhadores com o mesmo nível de escolaridade apresentam diferenças no salário. Homens ganham em média R$ 5.572,28, enquanto as mulheres recebem R$ 3.357,34.

Além do franqueado temos a preocupação de treinar os gestores e demais colaboradores da rede Minds para a prática da igualdade de gênero. É fato que a igualdade de gênero deve ser feita fora e dentro da sala de aula. Todavia, os docentes têm a responsabilidade de passar os valores de igualdade para os mais jovens. Logo, é necessário treinar os pedagogos para praticarem o combate contra todo tipo de preconceito, seja referente a sexo, raça, etnia, cor, geração ou identificação de gênero.

Quando as escolas promovem debates com as/os alunas/os sobre a importância da igualdade supera os preconceitos e opressões, e minimiza a desigualdade, como a divisão sexual do conhecimento ou estereótipos. Isso promove seres humanos mais críticos e empáticos. Temos sempre que lembrar que a escola é um dos principais espaços que crianças e jovens interagem e formam os seus valores sociais. Logo, incentive a igualdade de gênero na sua escola.

 

LeizaLeiza Oliveira é CEO e diretora educacional da rede Minds Idiomas. Fez magistério, ciências contábeis e administra um total de 70 escolas de idiomas. Possui escolas nas 5 regiões do país. Realiza treinamento de franqueado, lida diretamente com alunos e atualmente reside nos Estados Unidos para trazer tecnologia para dentro das salas de aula das escolas da Minds.

Mães e a importância da Inteligência Emocional

Por Semadar Marques

Ser mãe não é nada fácil. É preciso um esforço enorme para vencer os próprios medos, disposição para aprender e a dura missão de educar e nunca ter total certeza de que se está totalmente no caminho certo. É estar aberta e inteira para doar todo o amor que talvez um dia nem tenha recebido. Uma luta diária para equilibrar entrega de carinho e firmeza, e nesse meio tempo, encarar a insegurança que ainda acompanha muitas mulheres por terem crescido rodeadas de ideias carregadas de preconceito e diminuição do valor da mulher.

Sim, tem que ter muita inteligência emocional para ser mãe.

Formar filhos que sejam capazes de tomar decisões com segurança e façam escolhas assertivas ao longo da vida é o sonho de todas as mães (ou ao menos deveria ser). A Inteligência Emocional, quando cultivada na educação de um filho, é capaz de formar um ser humano que reconhece e sabe lidar com as próprias emoções, o que vai lhe preparar para enfrentar as situações adversas que provavelmente irão cruzar o seu caminho ao longo da vida.

Porém, não existe saúde emocional sem autoestima. E infelizmente muitas mães ainda estão em processo de percepção disso. Outras, infelizmente, ainda não se deram conta de que seus déficits de amor próprio irão impactar severamente no jeito que os filhos irão enxergar a si mesmos ao longo da vida.

A visão que você tem de si mesma determina a qualidade de seus relacionamentos, e isso se aplica também (e principalmente) quando se trata de filhos. Se sua autopercepção é saudável, consegue reconhecer seu valor e aprova suas atitudes – e é exatamente essa segurança interna que você irá transmitir aos seus rebentos. Do contrário, a ansiedade exagerada por aprovação e reconhecimento externo por conta da falta de amor próprio irá azedar sua relação de amor com seus pimpolhos e a forma como eles irão aprender a elaborar as próprias emoções.

Para educar filhos saudáveis emocionalmente é preciso muito fôlego e paciência, reconhecendo e valorizando cada uma de suas emoções, sem desconsiderá-las ou reprimi-las. Mas perceba que essa oferta está diretamente proporcional à inteligência emocional cultivada em si, e ela, por sua vez, ligada ao tanto de autoestima e autoconfiança que for desenvolvida.

Desenvolver uma autopercepção positiva para inspirar seus filhotes é algo que exige muito treinamento, de si mesmo e na interação com eles.

Crianças que têm limites e que sabem resolver conflitos lidando bem com aquilo que sentem, tornam-se adultos com uma grande propensão a terem sucesso sustentável e duradouro, lidando bem com as adversidades e tendo motivação para definir metas e vencer seus próprios desafios. Por isso é tão importante as mães saberem driblar seus medos e encarar os monstros internos que as impedem de transmitir essa segurança.

Colocar uma pessoinha neste mundo se predispondo a educá-la e a construir um ser humano ético e correto exige muito, mas muito autoconhecimento.

 

Semadsemadar (113 de 130)ar Marques é educadora e palestrante especialista em Empatia, Propósito de Vida e Inteligência Emocional. www.semadarmarques.com.br

Entrevista: psicóloga fala sobre baleia azul, bullying e depressão

 

1076x616-5-movies-about-bullyingNatércia Tiba Machado é psicóloga clínica e psicoterapeuta de casal e família. Nesta entrevista exclusiva, ela fala sobre o jogo “Baleia Azul”, que incentiva os jovens a praticarem atos nocivos à saúde, e sobre problemas como bullying e depressão.


Que cuidados os pais devem tomar para evitar que seus filhos comecem a jogar o jogo da Baleia Azul?

Os cuidados para que os filhos não se envolvam em jogos como o da Baleia Azul devem começar desde cedo. Os pais devem ensinar aos filhos alguns critérios para avaliar o que é bom e o que é perigoso. Começamos a fazer isso protegendo-os, mas não basta. É necessário ensinar a avaliar, porque nem sempre estaremos com eles quando as ameaças surgirem. Devem ensinar a dialogar e a procurar ajuda sempre que acharem algo estranho, mas acima de tudo, os pais devem estar sempre informados do que os filhos jogam, quais redes sociais usam e com quem se comunicam. Só conhecendo esse universo poderão avaliar os riscos. Se os pais têm filhos que usam a internet livremente, é necessário que estejam antenados para que saibam de situações perigosas antes que as crianças comecem a se envolver.

Quando surge algo tão nocivo como o jogo da Baleia Azul é fundamental conversar, explicar o que está acontecendo, que fatos já ocorreram e proibir o acesso a qualquer link relacionado a ele. Caso os pais não tenham confiança ou controle sobre o filho, talvez seja necessário interferir de forma mais direta, suspendendo o contato com a mídia social na qual o jogo aparece. Quando digo que o trabalho começa desde cedo, quero dizer que, se os pais foram presentes, se sempre existiu diálogo e um bom relacionamento, os filhos acatarão e entenderão o pedido de manter distância dos riscos.

Na sua opinião, por que tantos jovens estão interessados nesse jogo?

A curiosidade é uma parte natural da adolescência. Os adolescentes vivem uma fase do desenvolvimento na qual testam os limites, são onipotentes e acham que nada de mal irá acontecer. Estão em um momento intenso de pulsão de vida e pulsão de morte. Se arriscam para sentir a adrenalina e confirmar que nada de mal lhes acontece. Isso faz com que sejam mais “atirados” e muitas vezes rebeldes, sentindo uma atração enorme pelo proibido. Esse jogo une muitos elementos que os atraem, como num filme de mistério. Os riscos e a polêmica atraem muitos jovens. Por essa razão, é fundamental uma educação e relação familiar bem consolidada (seja o tipo de família que for) para que entendam que, na realidade, não é apenas um jogo, mas uma armadilha que leva a um final trágico, que foge ao controle deles. Nesse momento, é importante que a palavra dos cuidadores tenha peso para eles, para que seja mais forte do que a curiosidade e a rebeldia próprias da idade.

O jogo e a série “13 Reasons Why” têm estimulado a discussão sobre depressão. Há alguma maneira de prevenir a depressão? Como é possível tratar os jovens deprimidos?

Aqui esbarramos em um ponto bastante complexo. Para facilitar a compreensão, vou dividir a depressão em 3 tipos: 1. Depressão Endógena, 2. Depressão Reativa, 3. Depressão por fragilidade (específica da geração atual).

A depressão endógena é aquela que se desenvolve de dentro pra fora, por um desequilíbrio neuroquímico. Em geral há casos nas gerações passadas. A prevenção, nesse caso, está relacionada ao conhecimento de uma possível “tendência” familiar e conhecimento da doença, para saber em que momento costuma surgir (fases do desenvolvimento como adolescência ou momento do ciclo de vida, como chegada de um filho…). Mesmo a endógena sofre influências do ambiente e das relações. A pessoa pode ter a tendência, mas nunca desenvolver o quadro, assim como pode não ter tendência nenhuma, mas ter vivências tão desestruturantes que acaba desenvolvendo um quadro depressivo.

No caso da depressão reativa, a pessoa pode não ter nenhum quadro na família, pode nunca ter apresentados traços depressivos, mas teve uma vivência tão dolorosa que acabou deprimindo ou uma história de vida de muito sofrimento, ou relações afetivas destrutivas. Nesse caso, as pessoas que convivem devem alertar se acharem que a pessoa está muito depressiva e sugerir que procure ajuda profissional.  Assim como em outros quadros psicopatológicos, como Transtornos de Ansiedade, Transtornos Alimentares, quanto mais houver informação, mais a população será capaz de identificar e procurar ajuda. E quanto mais cedo a ajuda, mais, nós profissionais da área da saúde mental, poderemos ajudar.

O terceiro tipo de depressão chamei de depressão por fragilidade. Eu não a classificaria como patologia como as anteriores, mas como uma patologia social, pela extensão que atinge a geração atual. É o caso das pessoas que crescem sem desenvolver a resiliência, que é a capacidade de se reestruturar após um sofrimento ou uma frustração. Diferente da reativa, o sofrimento é desproporcional ao ocorrido, ou seja, a pessoa está frágil demais e acaba reagindo de forma depressiva a situações que são comuns a maioria de nós ao longo da vida. Infelizmente, esse é o perfil da geração atual, tanto de adolescentes como de jovens adultos. Pessoas que se frustram e reagem agredindo o outro ou a si mesmo. Pessoas que estabelecem uma relação doente com seus desejos a ponto de não terem flexibilidade para rever a vida e os objetivos.

Nesse caso, a prevenção pode acontecer para a geração seguinte. Os pais podem e devem se informar mais e se empenhar para educar os filhos com resiliência. Essa é uma missão ingrata porque a sociedade caminha de modo a satisfazer cada vez de forma mais imediatista os desejos. Precisamos ensinar aos filhos que sofrer faz parte da vida e que isso nos fortalece. Esse fortalecimento pós sofrimento tem se tornado cada vez mais raro. Quando essa geração se vê diante de um sofrimento, se desespera porque aprendeu que devem ser felizes e acham que a felicidade é um sentimento pleno e constante.

Em relação aos que estão deprimidos agora, nos resta tratá-los, cuidá-los, vigiá-los (porque perdem a noção de crítica e cometem loucuras com os outros e com eles mesmos) e principalmente aprender uma lição: há algo muito errado na educação dos nossos filhos e na sociedade, precisamos mudar já!

O bullying também anda sendo um assunto muito discutido. No entanto, muitas pessoas ainda têm dúvidas sobre a diferença entre bullying e brincadeira. Eu começaria diferenciando a brincadeira da ofensa. A brincadeira acontece quando todos os envolvidos se divertem. Quando algum ou alguns não se divertem, se incomodam com a atitude, passa a ser uma ofensa.

Feita essa distinção, podemos falar em bullying. O bullying é o processo no qual acontecem ofensas e agressões a uma mesma pessoa por um determinado período de tempo. Se uma criança briga com outra na escola e a ofende, não é bullying, é uma ofensa, mas se uma criança ou um grupo ofende e agride sempre a mesma criança por um longo período, deixando-a em um lugar sem reação por medo de que a situação piore, aí estamos falando em bullying.

Em geral a vítima de bullying tem muita dificuldade em reagir, justamente por medo de agravar a situação. Por essa razão, deve haver informação e mobilização dentro dos ambientes onde costumam acontecer para que, se presenciada por outras crianças, estas avisem os adultos ou responsáveis. Aquele que presencia uma agressão e não faz nada acaba se tornando cúmplice e dando força ao agressor. Reagir não significa interferir diretamente na situação, mas sim informar alguém que possa interferir.

O que pais e professores podem fazer para evitar o bullying?

O primeiro passo é o conhecimento do que é, como acontece, que tipo de situação favorece, como reagir e/ou ajudar quem está sofrendo. Os pais precisam conversar sobre esse tipo de agressão e explicar que, em geral, a pessoa agredida tem dificuldade em reagir, por essa razão não devem jamais presenciar algo e calar-se. Outro ponto é manter-se informado sobre os amigos e as relações dos filhos, chamá-los em casa, levar e buscar, oferecer para acompanhar em programas. Em geral, o adulto, já mais experiente, percebe quais têm perfil de bullies (em geral são os engraçadinhos que bancam os sabichões), e então pode alertar o filho (não julgar o outro, mas estar atento sempre). É fundamental também estar próximo aos filhos no dia a dia, para notar alterações de humor ou sintomas que surjam inesperadamente, como receio de ir à escola, crises de ansiedade, choros frequentes, entre outros. Nesse caso, deve-se conversar com o filho em questão e ainda averiguar na escola o que pode estar acontecendo.

Vale destacar que, muitas vezes a situação não é de conhecimento dos professores e nem dos vigias, pois acontecem às escondidas. Sendo assim, é fundamental que a escola seja parceira, para que possa observar de forma mais atenta e até mesmo estratégica situações nas quais o bullying pode ocorrer.

Em relação aos professores, a informação é também o primeiro passo, tanto entre o corpo docente quanto com os alunos, mas é necessário ir além da informação. O ideal seria que fossem feitas campanhas, dinâmicas de classe, trabalhos em grupo, para que compreendessem o que é bullying e como é o sofrimento infringido à vítima. Além disso, é importante que haja um espaço de diálogo para que os alunos saibam que podem recorrer a eles caso necessário. Com todos atentos, fica mais difícil acontecer e, se acontecer, logo se identifica.

 

Foto: ©Divulgação